Das ruas: do chão das praças à Olimpíada, o break é um estilo de vida

Dança pode integrar jogos olímpicos de Paris, mas ainda é alvo de preconceito pelas ruas 

Por Mariana Corrér 

 

Quase toda expressão popular reúne diferentes manifestações na intenção de entregar a mensagem esperada. Vinda das periferias de Nova York, a cultura hip hop é representada por todas as esferas artísticas. 

Música, dança e pintura fazem parte desse universo e, cada vez mais, se populariza e atinge mais e mais gente em todo o mundo. Surfando nessa onda, muitas academias de dança levaram o estilo para dentro de suas salas e o tradicional break, que é a cara da cultura de rua, já foi amplamente ramificado e hoje tem inúmeras outras versões, nomes e praticantes. 

Modismo à parte, o break é uma importante peça das manifestações de rua, com voz de protesto, assim como o rap e o grafite fazem com a música e a pintura. Criado em áreas em que a presença de gangues era tão comum quanto brigas de ruas, com armas brancas ou de fogo, o break começou a ganhar espaço nas batalhas. Em vez de agressões, os ataques e defesas vinham com passos ousados e que foram evoluindo e ganhando jovens ao redor do mundo. 

Os movimentos, na verdade nasceram com o funk e soul americanos, mas logo se adaptaram ao estilo que vinha se criando juntamente dentro da cultura hip hop. 

A repressão é o combustível para o break. “Quanto mais problemas aparecem, mais inspiração a gente vai ter”, concorda Raul Leme, do Instrusos Crew, um grupo de dança de Indaiatuba que leva o break às ruas e palcos da cidade desde 2004. 

Leme e mais dois integrantes, Kleber Silva e Luciano Teixeira, o Batata, são os três que estão desde o início, quando o grupo se chamava Intrusos a Banca e tinha quase 50 integrantes. 

Hoje, com dez, seguem firmes na missão de continuar democratizando o break e mostrando que, mais que uma dança, ele é um estilo de vida. “O hip hop é feito de vários elementos, e temos todos eles no nosso crew, o rap (mc), DJ, grafite e break”, lembra o veterano.  

Fabiano Rodrigues, também Intruso, reforça que isso faz parte do estilo de vida de cada um deles. “A gente vive o break, ele vem primeiro e o resto acompanha esse estilo”, diz. “Minha forma de falar, de vestir, a música que escuto, as pessoas que conheço são totalmente ligados à essa cultura e tudo isso faz parte da nossa vivência”, acrescenta. 

Ele ainda lembra que eles não ganham dinheiro com a dança, que essa não é a profissão da vida de nenhum deles, porém, o break vai muito além dos ensaios, que acontecem de segunda, terça e quinta-feira à noite. “Nós escolhemos não viver disso, mas sim viver para isso”, explica. “Tudo o que fazemos é para continuar dançando”. 

 

VERDADEIRO CREW 

Em inglês, crew pode ser traduzido por grupo de pessoas ou equipe. Na gíria, é mais que isso, é usado para família. E é assim que os Intrusos se definem. “Hoje é difícil a gente ir todo mundo junto para todos os eventos, mas estamos juntos sempre que conseguimos”, comenta Rodrigues. “Nós fazemos parte da vida uns dos outros, conversamos, frequentamos a casa, não tomamos nenhuma decisão sozinhos, sempre é tudo muito conversado”, acrescenta Leme. 

A participação em competições e outros eventos já não acontece no mesmo volume do começo do grupo, afinal, mais velhos, têm mais compromissos e responsabilidades. A presença em todas as oportunidades, aliás, os remete ao início do crew, lá em 2004. “Quando começamos, sem internet, os convites chegavam depois dos eventos, e aí, em outros, a gente ia sem ser convidado, já querendo participar”, recorda Raul. “E aí que começaram a chamar a gente de Intrusos, porque a gente chegava de intrusos mesmo”, complementa. 

Hoje, em menor número, as coisas são mais programadas. Porém, o grupo já está crescendo de novo. O filho de um dos integrantes, Johnny Rodrigues, já começou a dançar. Luiz Felipe é o caçula e vem acompanhado do irmão, ainda muito pequeno para se arriscar nos passos mais complicados, mas mesmo assim não perde um dia de treino.  

Também fazem parte do crew Adrieli Rocha, Elaine Ferreira, Rafael Gomes, Diego Albrecht e Felipe Diniz. 

 

PRECONCEITO DE LONGO TEMPO 

Como qualquer manifestação social, a represália e o preconceito fazem parte da história do break. E ainda fazem parte, infelizmente, da rotina de quem vive para o estilo.  

“O preconceito começa dentro de casa”, lamenta Raul. “Quando a gente era moleque, falavam, aí crescemos e continuaram perguntando até quando a gente ir ficar rodando no chão, e, agora, com 30, a pergunta continua mesma”, reclama. “E, depois, quando aparece na TV, todo mundo gosta, aí falam que é legal, que acham que a gente vai ter futuro com isso”, completa Rodrigues.  

Da porta para fora, a situação só piora. “Já fomos agredidos pela polícia só porque a gente estava dançando na praça”, revela Leme. “E o mesmo policial que chegou batendo, no dia seguinte, parou com os filhos pra ver a gente dançando, pediu desculpas e disse que entendeu o que a gente fazia, que aquela era nossa arte”. 

Como qualquer manifestação de arte, no entanto, o break – como o hip hop - é bem democrático e inclusivo. “Mesmo a TV mostrando como algo bom, não mostra como é nossa realidade, e isso mantém a discriminação que temos”, pondera Leme. “Mas mesmo assim continuamos dançando, curtindo, temos muitas crianças, muitas mulheres que dançam”, prossegue. “E isso mostra que é para todos, até para quem não dança, pois todo mundo curte junto, e não somos vagabundos como ainda falam”, protesta. 

 

ARTE NAS OLIMPÍADAS 

O break já faz parte do quadro dos Jogos Olímpicos da Juventude. Em 2018, houve uma disputa da modalidade, em Buenos Aires, na Argentina. O Brasil não mandou nenhum representante, pois não há nenhum órgão que regule o esporte. 

Para 2024, nos Jogos Olímpicos de Paris, a dança, que agora é considerada esporte e chamada de breaking, pode ser incluída na competição. o Comitê Olímpico Internacional (COI) propôs a inclusão, não só do break, mas também de skate, escalada e surfe para os jogos na França, e, mesmo que não esteja confirmado, as chances de ser definitivo são grandes. 

A novidade, por mais estranha que possa ser para alguns praticantes que sintam a dança apenas como parte do estilo de vida, é positiva. Mostra que a modalidade deve ser respeitada e não marginalizada como ainda acontece. 

Nos Jogos Olímpicos, a modalidade pode gerar ainda mais comentários. “Quem for assistir, será que vai entender o que está sendo avaliado”, questiona Rodrigues. “Porque muitos só acham que é difícil dar um mortal, girar no chão, mas isso não é a dança, esses são alguns movimentos que fazem parte dela”, adiciona. “O que vale ali é a dança, é a composição dos passos”. 

Os passos, aliás, são complexos, repletos de muita técnica e novidades constantes. “Existem os passos básicos, mas a evolução é sempre, todo mundo pode cocriar junto, eu posso melhorar o passo de alguém e outra pessoa aumentar a técnica de outro, é tudo muito livre”, justifica Leme. “O importante é saber de onde veio tudo isso”, conclui Rodrigues, fazendo referência ao funk americano, a movimentos da ginástica olímpica e à leveza do balé, todas as bases do break.