Das ruas: estilo mais ouvido do mundo, rap não precisa ser monotemático

Sua base foi de manifestações sociais, mas qualquer assunto pode compor o ritmo

Por Mariana Corrér 

 

Fruto da cultura Hip Hop novaiorquina, o rap é, hoje, o estilo de música mais escutado em todo o mundo. Está em alta com letras que falam sobre tudo e é seguido por diferentes tipos de ouvintes. 

O nome veio do anacrônico em inglês rhythm and poetry - ritmo e poesia, na tradução. Mas nem só disso vive o rap. Muitos protestos e (principalmente) um estilo de vida o permeiam. 

Desde seu início, lá na década de 1970, em uma mistura com toques jamaicanos, o rap tinha por objetivo dar voz a grupos perseguidos por todo tipo de preconceito na cidade de Nova York. 

Como qualquer sociedade reprimida, essas pessoas começaram a falar sobre suas realidades e a denunciar problemas sociais que as “classes mais favorecidas” desconheciam. 

Obviamente, o movimento angariou ainda mais preconceito. A desconfiança era pelo perigo que essas pessoas poderiam oferecer por falar sobre crimes e desobediência ao sistema. 

Chegando ao Brasil, não foi diferente. A discriminação tem diminuído bastante, mas ainda não são todos que se permitem ouvir – e aceitar - canções que carregam mensagens sociais e políticas vistas pelos olhos de quem vive os maiores problemas do país. 

 

ABRASILEIRADOS 

O hip hop no Brasil é mais politizado que o americano. Os preconceitos, desigualdade social, violência e a vida nas periferias ainda são muito evidenciados no rap brasileiro, o que o diferencia do estilo mais popularizado em outros locais. Mas aqui ele tem espaço para falar também sobre coisas boas, sem a obrigatoriedade de manter os problemas como mensagem principal da música. 

“O rap ficou pop, chegou em todos os lugares, é a música mais ouvida no mundo e tem artista (Drake) no topo das paradas, batendo recordes”, ressalva o rapper de Indaiatuba, Anderson Xavier, o Pi. 

Como tudo que chega no Brasil, o toque popular e a cultura nacional transformaram o hip hop, que tem uma sonoridade que leva a ritmos bem tradicionais como o samba ou usa os batuques africanos tão ouvidos no Nordeste. 

É assim que Pi faz suas músicas. Misturando temas, ritmos e públicos. Ele canta desde 2006, já foi vocalista de banda de rock e de reggae. Já teve grupo de reggae e, no momento, canta em carreira solo, só com composições próprias. “Escrevo sobre tudo, vou de críticas sociais até relacionamentos fictícios, não necessariamente coisas que já vivi ou vi, mas também imagino algo que pode estar acontecendo com alguém e crio”, explica. Seu próximo single, por exemplo, será sobre um amor de verão.  

O mix de estilos vale também para seus ritmos. “Costumo juntar samba, maracatu, reggae etc. para fazer sempre sons diferentes”, lembra o cantor. 

 

SEM ESPAÇOS, SEM LIMITES 

Embora o estilo esteja cada vez mais popular, não é todo mundo que encontra um lugar para curtir um show e, muito menos, o artista acha um palco para levar seu trabalho. 

Xavier acredita que, como a maior parte das coisas por aqui, a mágica demora para acontecer no Brasil. “Mas acho que daqui alguns anos, será como no resto do mundo”, aposta.  

Até os espaços voltados ao estilo ainda são restritos, e isso vale para Indaiatuba. Pi reclama que não há lugar para o underground na cidade, somente uma casa de shows no Centro recebe diferentes estilos de música - principalmente as que não estão tão em alta. “Raramente as casas dão oportunidade para sons autorais, mas alguns espaços estão sendo abertos aos poucos”, opina. 

Enquanto isso, não há nada que impeça um artista de se manifestar. “Então nós criamos nossos próprios rolês, fazemos festas de pequeno porte e já temos um festival de grande porte”, comenta, citando o Festival Motirô, que acontece anualmente e chegará à terceira edição em maio de 2020. 

No evento, várias atividades compõe o dia de festa, entre diferentes estilos de música, teatro, mágica, show de humor, tatuadores e muito mais. “Sem preconceito”, resume o artista. 

 

NEGRO COMO PROTAGONISTA 

 

 

Muitas das manifestações culturais brasileiras estão identificadas com a população negra. O hip hop tem o mesmo papel nos Estados Unidos. Chegando ao Brasil, a cultura se fortalecer entre as comunidades negras, principalmente nas periferias.  

Claramente, o rap hoje ultrapassa cores e classes. “O rap é de todos, mas o negro não pode perder seu espaço pelo preconceito da sociedade só porque a música se popularizou”, declara Xavier. “Foi assim que aconteceu com o rock, também criado por negros e hoje representado, na maioria, por brancos porque foi assim que a mídia popularizou o estilo”, acrescenta. 

Para ele, não se pode perder a identidade. “A música foi criada por negros, no gueto, e isso tem que ser o quadro principal, o negro tem que ser protagonista e não coadjuvante”, completa o cantor.