Das ruas: grafite é o casamento perfeito entre arte e protesto social

Com uma história polêmica, arte de rua ganhou galerias badaladas pelo mundo

Por Mariana Corrér 

 

Uma boa ideia, alguns sprays coloridos e um muro sem graça. A combinação é suficiente para dar vida à arte que tem tomado conta das ruas, o grafite. Em Indaiatuba, mesmo ainda tímido, ele também vem ganhando espaço. 

O grafite nasceu em Nova Iorque, na década de 1960. Nos Estados Unidos, a inserção da arte começou com jovens ligados a alguns movimentos, como o Hip Hop, e que queriam se expressar sobre a opressão presente na sociedade. Essas marcas começaram a tomar os muros, dando voz a parcelas menos vistas nas cidades e refletindo a realidade das ruas. 

No Brasil, o grafite chegou pouco depois, com São Paulo como porta de entrada. Aqui, veio com um pouco mais da influência que ganhou na Europa, com um ar mais moderno. Também teve seu toque brasileiro e hoje é referência em todo o mundo.  

Rafael 'Casp' Pereira vive o grafite há 18 anos. Começou criança e já deixou vários de seus trabalhos em paredes de Indaiatuba. Ele lembra que, chegando no Brasil, os grafites já estavam bem evoluídos, com cor e mais estilizados, como nos muros europeus. 

Em solo americano, por ser proibida, a manifestação era como a que aqui é chamada de pichação, afinal, tinha que ser rápida. Na Europa, com a tendência de transformar tudo em moda, foi quando ganhou o visual que hoje é visto, inclusive, em muitas galerias de arte mundo afora, com bastante cor, recortes e imagens que vão muito além das letras. 

 

CONTRA A CENSURA 

Até chegar a ser badalada e valorizada como agora, muitas polêmicas giraram em torno dos grafiteiros. No começo do movimento, no Brasil, ele estava diretamente vinculado à ditadura militar, que caçava qualquer liberdade de expressão. Como qualquer outra manifestação artística que não atendesse aos padrões da censura, o grafite foi proibido. 

Muita de sua evolução em São Paulo se deu pelo artista etíope Alex Vallauri, radicado no Brasil. Ele foi um dos responsáveis por diferentes desenhos que estampavam a capital paulista contra a ditadura e, depois, a favor das Diretas Já. 

Sua morte, em 27 de março de 1987, deu início ao Dia do Grafite no Brasil, celebrado ainda hoje. 

 

CONTRA A PICHAÇÃO? 

O grafite nasceu da pichação e, até de certo modo, continuam muito parecidos. Mas por que, então, um é tão bem aceito e o outro ainda é marginalizado? A dissociação entre eles foi o que deu a maior aceitação ao trabalho dos grafiteiros. E mais, o colocou na linha de frente no combate ao picho.  

A pichação ainda é considerada vandalismo, sujeira e, pela lei, é crime, uma vez que é feita sem autorização dos proprietários. 

O grafite burocratiza essa manifestação. Antes de pintar qualquer muro, os artistas conversam com os responsáveis para que o espaço seja liberado. “Mas o ato de protesto é igual”, afirma Rafael. “A disposição que o cara tem para subir num prédio e pichar é a mesma que eu tenho de acordar cedo para vir pintar”, garante. 

E esse foco em comum é o que mantém total respeito entre as partes. “A atitude de pichar, de querer levar seu nome pra cima é legal, faz parte da ideia de querer ser visto, como fazemos com o grafite”, comenta. “Tanto é que tem muito gringo que vem para cá e chama nossa pichação de grafite”, acrescenta. 

Porém, como a imagem da pichação segue ligada à degradação urbana, muita gente acaba pedindo para ter grafite em suas paredes para evitar que alguém as piche. “Tem gente que nem gosta do grafite, mas pede só porque sabe que o pichador respeita e não vai pichar em cima”, revela o artista. 

 

O MOVIMENTO 

 

 

Rafael vê a cena de Indaiatuba como promissora. Está crescendo, tem poucos artistas na ativa de verdade, mas tem uma excelente recepção por quem transita pelas ruas. “Muita gente para pra conversar, quer saber e pede para fazer em suas casas”, comenta. Como ele só faz o casp (estilo de letras), também indica artistas para o estilo mais pedido, que é o de paisagens. 

Fora daqui, os movimentos estão cada vez mais fortes em todo o país. “No Rio é muito forte, na Bahia tem um pessoal muito bom, o interior está muito forte também, mas São Paulo ainda é a referência”, diz. 

Voltando a Indaiatuba, os grupos mais ativos são o Amor de Letra e Mundo Livre. Rafael integra os dois crews. Pela correria do dia a dia e a dificuldade de conciliar a arte com os outros compromissos, eles estão pintando juntos poucas vezes, principalmente porque alguns integrantes dos grupos não vivem na cidade. Para o muro da foto, por exemplo, ele foi sozinho. “Esse muro já tinha coisa minha antes e fui atualizar, com a ideia de fazer algo diferente”, conta. 

E foi munido de um rascunho riscado no caderno e de seus sprays que saiu uma nova manifestação na região central da cidade. Com um muro um pouco sofrido, com descascados deixados propositalmente pelo artista, que a mensagem se reforça. “Isso deixa o trampo mais real, com mais vida e com mais cara de rua”, avalia. 

Depois de pronto, só uma foto. Com a consciência de que o que está na rua não tem dono, Rafael trabalha o desapego. “Faço uma foto e nem vejo mais, pra mim, o que vale é o momento”.