Deixa ela jogar: times criam equipes femininas e buscam protagonismo em Indaiatuba

No campo e na quadra, as meninas só esperam reconhecimento e menos discriminação

Por Mariana Corrér

 

“Qual é, qual é, futebol não é pra mulher? Eu vou mostrar pra você, mané, joga a bola no meu pé.”

Esse é o refrão da música que se tornou um hino da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de Futebol Feminino deste ano, na França. A competição foi um marco para o esporte, primeira vez transmitida em canal aberto. Também foi neste ano que começou a valer a obrigatoriedade da Fifa para que times da primeira divisão tenham equipes femininas.

Tudo isso já reflete positivamente em um cenário em que as mulheres estão cada vez mais ativas contra o machismo e em busca de reconhecimento e empoderamento.

Em Indaiatuba, o refrão do pagode das meninas da seleção já reverbera. A mesma pergunta e o mesmo pedido são feitos diariamente por meninas que escolheram o futebol como esporte.

Agora, elas têm duas equipes para realizarem o sonho de jogar bola. O Esporte Clube Primavera, se antecipando à exigência de os times terem futebol feminino, criou o projeto em maio deste ano e já recebe várias atletas. A Liga Regional Aifa de Futsal, abraçando as meninas que já representam a cidade e aquelas que querem começar, iniciou o projeto Águias do Sol em agosto, já com um calendário de competições.

 

PONTAPÉ INICIAL

Carolina Machado é a gestora do time do Primavera e lembra que o clube, com iniciativa do presidente Eliseu Aparecido Marques da Silva, decidiu pela criação da equipe feminina mesmo sem a exigência a CBF, que é para times de primeira divisão, para dar oportunidade a todas as meninas que querem jogar.

A ideia da Aifa foi a mesma: trazer todas as que procuram um espaço para praticar o esporte, o que, normalmente, é restrito aos meninos, como enfatiza a vice-presidente da Liga e diretora do projeto, Kelly Filaz. O Águias do Sol também abraçou o time feminino da ADI, que representa Indaiatuba profissionalmente e, inclusive, foi campeão dos Regionais do ano passado.

Ambas as equipes estão formando uma comissão técnica pensada especificamente para a mulherada, pois a demanda é específica. O Primavera já conta com o experiente Renato Creatto, que trabalha com as categorias de base do clube e está treinando as meninas, com o Reinaldo Silva, psicólogo esportivo, e mais gente das outras categorias do Primavera, além de estar planejando a vinda de uma especialista.

A Aifa tem a Kelly e Edson Pereira Soares dos Santos, com experiência de anos no futsal feminino, e agora treinando as novas atletas da Liga.

 

OS TREINAMENTOS

As duas equipes treinam duas noites por semana, e o Primavera faz alguns treinos aos sábados. Ainda é pouco para times que buscam a profissionalização, mas é um grande começo para encontrar jogadoras.

O fluxo e as necessidades são os mesmos, tanto para o pessoal do campo quanto da quadra. Ambos estão recebendo novas aspirantes todas as semanas. Muitas continuam, outras não. Aos poucos, elas vão treinando, se integrando e os times vão se formando. Ainda sem atletas suficientes para montar categorias, como o necessário, mas eles já possuem dois times – no caso do Primavera, uma equipe principal e outra sub-20 (que mescla meninas a partir dos 13 anos). No caso das Águias do Sol, a ideia é ter um grupo competitivo e outro para as garotas que querem jogar sem essa preocupação.

O Primavera, aliás, já vem fazendo alguns amistosos para treinar essas equipes. Os jogos-treinos também estão nos planos da Aifa, mas só para 2020.

Nos dias de treino, os desafios são constantes. Diferente dos meninos, que começam a jogar ainda pequenos por vontade dos pais, as meninas chegam, em sua maioria, cruas. “Elas começaram a chegar de forma orgânica, pois a maioria já treinava futsal ou brincava no society, mas também recebemos várias que nunca tinham jogado, mas gostariam de começar”, conta Carol, do Primavera.

Assim, a rotatividade é grande, já que muitas vão um ou dois dias e descobrem que não é o que queriam ou que não levam jeito. Outras, no entanto, descobrem o contrário.

“Temos o sub-20 e o principal, nos dois casos vemos expectativa de crescimento, meninas que querem isso para a vida e que têm muito potencial”, reforça Kelly. “Queremos pegar o grupinho que chega com 12, 13 anos e ir lapidando, formando subcategorias, para que logo tenhamos um time principal competitivo”, acrescenta a vice-presidente da Aifa.

Assim, a ideia é uma só: quanto mais gente chegar, melhor. “Estamos abertos a receber as meninas e, aos poucos, uma peneira natural vai acontecendo, até conseguirmos montar os times da base”, explica Carol.

Enquanto isso, vão surgindo os desafios e aprendizados. “Temos que entender que elas não chegam com o preparo que os meninos chegam, porque elas normalmente não tiveram a mesma oportunidade, também aprendemos que o desempenho físico é diferente, o esquema de jogo não é o mesmo, e assim, vamos aprendendo juntos”, analisa Renato Creatto.

Os treinos de ambas as equipes acontecem de terça e quinta-feira à noite. O Primavera das 19h30 às 21h, no Centro Esportivo do Trabalhador, na Cidade Nova. As meninas da Aifa se reúnem às 21h no Complexo Esportivo do Morada do Sol.

 

O PRECONCEITO

Felizmente, em um mundo ainda bastante machista, a discriminação vem diminuindo. Pelo menos essa é uma percepção unânime entre todos os envolvidos nesse momento do futebol feminino de Indaiatuba.

“A Copa deste ano ajudou muito, deixou o assunto mais natural e melhorou a aceitação das pessoas”, avalia Kelly, em um treino das Águias do Sol. “Estão entendendo que esse não é um esporte masculino nem um ambiente de homens, é lugar para todos”.

Ainda há muito o que se melhorar, mas os primeiros passos foram dados. Porém, essa mudança de cenário é recente e até pouquíssimo tempo atrás a discriminação ainda era enorme. “Algumas meninas já viveram o preconceito, mas chegaram até aqui por serem muito corajosas, porque querem aprender, querem jogar e querem viver o futebol”, ressalta Carol. “Elas não se importam com o olhar de machismo que pode vir”, adiciona. No Primavera, elas podem treinar com os meninos de categorias de base, que adoram a oportunidade. “No início, eles estranharam, mas hoje reconhecem o talento delas e aprenderam a admirar, gostam de jogar com as meninas”, revela a gestora.

 

ESTRUTURA

Os times do Primavera e do Águias do Sol contam com apoio da Prefeitura, por meio da Secretaria de Esportes. O Primavera, assim como os times masculinos, tem patrocínio do Colégio Meta e pode usufruir de toda a estrutura do clube. A Aifa ainda está buscando mais apoio para concretizar seus planos.

A busca por patrocínio é constante e é o que vai viabilizar mais estrutura, viagens para jogos e campeonatos etc. “Está muito difícil, mas acho que mais por medo de retorno do que preconceito”, sugere Kelly, que segue otimista.

Enquanto isso, há planos para alguns jogos, amistosos ou treinamentos. No domingo, os dois times do Primavera receberam times da Ponte Preta para dois amistosos. Com as mais velhas, o placar foi de 4 a 2 para a Ponte, e com as menores, o visitante ganhou de 2 a 1.

 

OS SONHOS

Hoje as meninas que já chegaram ao futebol têm o mesmo sonho do que a maioria dos meninos do Brasil: jogar profissionalmente. “Elas querem jogar, ir para time grande, ser profissional, sustentar a família graças ao futebol”, declara Carol. “Não temos só atletas, temos sonhos aqui em quadra”, completa Kelly.

Um bate-papo com algumas meninas da Aifa, no intervalo do treino, mostrou isso. Fizemos algumas perguntas para o grupo e elas responderam coletivamente.

Alguns dos questionamentos foram: quem já jogava antes de chegar à Aifa, quem já participou de campeonatos jogando futebol (e/ou futsal), quem quer jogar profissionalmente, quem acha que isso é possível ou muito difícil, se acham que falta oportunidade e se já sofreram preconceito.

A grande maioria já jogava, pelo menos brincando, e a maior parte nunca participou de um campeonato, nem mesmo na escola. Quase todas querem jogar profissionalmente, mas sabem que é muito difícil e reconhecem que falta muita oportunidade no mercado, diferente do que acontece no masculino, onde há muito mais oferta.

A maioria das atletas também sofreu preconceito. Poucas nunca ouviram nada de ruim relacionado ao futebol. Para algumas delas, o problema começa dentro de casa. “Meu pai é muito machista e não quer que eu jogue, não queria nem que eu tivesse começado”, disse uma. “Não é coisa de menina”, ouviu a outra. “Minha sala da escola me zoa, porque eu sou a única que joga, e até minha mãe já me zoou”, lembrou mais uma delas.

Por outro lado, algumas têm a sorte de receber apoio e incentivos. “Meus pais que deram a ideia e me incentivam”, apontou uma jogadora. A novata, que estava em seu primeiro treino, também tinha motivos para comemorar: seu pai a levou e acompanhou todo o treinamento da arquibancada.

Em resumo, todas elas querem continuar jogando, profissionalmente ou não, participando de campeonatos ou não, mas em busca de respeito e reconhecimento pela decisão que tomaram.