Marido e mulher contraem a covid-19 e morrem no mesmo dia em Indaiatuba

Hoje é o 7º dia do falecimento do casal; ao todo, 13 pessoas da família tiveram a doença

Por Patrícia Lisboa

O casal Antônio Puerta, de 81 anos, e Neuza Rocha Puerta, de 78 anos, morava no Jardim Paulistano, em Indaiatuba. A união de 56 anos foi interrompida há uma semana, no dia 28 de julho, quando seo Antônio e dona Neuza não resistiram à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O casal deixou 7 filhos, 14 netos e 7 bisnetos.

O primeiro a ser internado com sintomas da covid-19 foi o seo Antônio, no dia 14 de julho. Depois, no dia 22 de julho, foi a vez de dona Neuza ser internada.

Com a diferença de uma semana entre uma internação e outra, os dois morreram no mesmo dia, no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc), em Indaiatuba. A diferença entre os óbitos foi de cerca de quatro horas.

Dona Neuza tinha hipertensão e seo Antônio sofria de doença pulmonar obstrutiva crônica, coronariopatia e era ex-tabagista. Mas, antes da covid-19, estavam com essas condições de saúde controladas, segundo um dos filhos do casal, o construtor Odair Rocha Puerta, de 44 anos.

Odair conta que a mãe teve uma infecção desconhecida, que provocou feridas na pele, e precisou ser internada, no dia 26 de junho. A internação ocorreu no Haoc.

Dona Neuza se recuperou da infecção não identificada, teve alta hospitalar e voltou para casa, no dia 3 de julho. Alguns dias depois, o marido dela, seo Antônio, começou a sentir sintomas de gripe. Ele teve dor de cabeça, febre e mal estar.

O filho conta que, primeiro, o pai passou por atendimento médico na unidade básica de saúde do bairro Maritacas, no dia 13 de julho, uma segunda-feira. “No posto do Maritacas examinaram e encaminharam meu pai para a UPA, onde ele já ficou isolado por causa da suspeita de covid. Na terça, dia 14, saiu o resultado do exame positivo para a covid e meu pai já foi para o Hospital Oliveira Camargo (Haoc)”, recorda.

Com o teste positivo do seo Antônio, dona Neuza e os filhos também foram chamados pelo posto de saúde para fazer o teste de covid-19.

“A atenção que o pessoal do posto do Maritacas teve com a gente foi excepcional. Tiveram um carinho muito grande”, elogia Odair.

Ao todo, 13 pessoas da família – incluindo o filho Odair – foram contaminadas pela doença.

Somente uma das filhas do casal, Regina, também precisou ser internada, no Haoc, por causa da infecção pelo novo coronavírus. “Minha irmã ficou internada oito dias em sala perto do meu pai, mas não pôde falar com ele”, lembra Odair.

Mas, segundo o filho, atualmente, com exceção dos pais que morreram, as outras 11 pessoas da família, entre irmãos, cunhados e sobrinhos dele, estão todas recuperadas da doença.

“Nós decidimos não tentar saber quem foi o primeiro infectado porque seria um peso muito grande em uma pessoa só. São muitos caminhos possíveis e saber de onde veio isso não mudaria nada”, explica Odair.

INTERNAÇÃO DO PAI

Segundo o filho, todas as noites, um médico do hospital ligava para ele para dar um parecer sobre o estado de saúde do seo Antônio. “Meu pai já tinha problema sério no pulmão, mas ele controlava a doença com a medicação, então, a gente tinha esperança que ele melhorasse da covid. Fizemos chegar um celular para ele no hospital e, então, nos primeiros dias, conseguia falar com ele. Mas, depois do décimo dia de internação, ele começou a piorar muito. Os médicos avaliaram que ele não aguentaria a intubação”, conta Odair.

Seo Antônio Puerta, tinha 81 anos (Foto: Álbum de Família)

INTERNAÇÃO DA MÃE

Enquanto o seo Antônio estava internado, a dona Neuza se recuperava da covid, em casa. O resultado positivo dela também saiu no dia 14 de julho, junto com o do marido. Na primeira semana, segundo o filho, dona Neuza não apresentou sintomas. “Ela também era muito calma e muito forte. Nunca reclamava de problema de saúde. Só controlava a pressão com os remédios”, conta Odair.

“No dia 22 de julho, minha mãe acordou ofegante, com falta de ar. No posto do Maritacas, já colocaram oxigênio para ela. Às 15h ela passou pela UPA e às 15h30 já estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Haoc. O atendimento foi muito rápido”, disse o filho.

“Minha mãe tinha muito medo de ser internada. Não contamos para ela sobre a intubação. Ela foi direto para a UTI. Meu pai estava no mesmo hospital, mas não soube que ela também tinha sido internada”, conta.

Segundo Odair, dona Neuza ficou estável nas primeiras 24 horas, mas, depois, apresentou problema nos rins, precisou fazer hemodiálise e teve dificuldades no tratamento.

Dona Neuza Rocha Puerta, tinha 78 anos (Foto: Álbum de Família)

OS ÓBITOS

Odair conta que, no dia 28 de julho, há uma semana, por volta das 10h, recebeu a ligação do médico do hospital informando que o pai tinha piorado muito.

“Como meu pai tinha começado a ter os sintomas no início de julho, naquele dia, já estava livre da carga viral. Então, pedi que ele fosse transferido para uma ala não isolada, para que ele pudesse receber os filhos. Eu não via meu pai desde que ele foi isolado na UPA. Por volta das 11h, o hospital ligou novamente. Achei que fosse a resposta sobre a transferência do meu pai, mas a notícia era que a minha mãe tinha morrido. Foi um choque. Naquele mesmo dia, por volta das 17h, ainda ao lado da sepultura da minha mãe, no Cemitério Memorial, me ligaram pedindo para eu ir até o hospital de novo. A notícia era que meu pai tinha morrido também. O impacto na nossa vida foi muito grande”, relatou Odair.

Segundo ele, ainda não tinha ocorrido nenhum óbito na família. Os primeiros foram dos pais, juntos. “O vazio é enorme e a dor é quase insuportável. Ninguém se prepara para isso. Não temos dúvidas de que, se não fosse a covid, meus pais não teriam morrido agora”, afirma Odair.

“O pior dessa doença é o isolamento. Saber que os pais estão doentes e não poder estar ao lado deles, dando carinho, é muito dolorido. Não poder se despedir dói demais”, desabafa o filho.

“Essa doença é muito radical. Por isso, o cuidado extremo é pouco”, alerta.

O CASAL

Especialmente nos últimos dez anos, segundo Odair, seo Antônio e dona Neuza pareciam um “casal de namorados”. “Eram muito carinhosos um com o outro. Meu pai era muito dependente emocionalmente da minha mãe. Mas, ele não soube e, então, não sofreu pela morte dela. Sou grato a Deus por isso”, enfatiza Odair.

“Eles gostavam de receber a visita dos filhos. Um dos irmãos, Osmar, morava com eles. Eu visitava os dois todos os dias, depois do trabalho. Eles costumavam sentar em frente da casa deles, debaixo de uma árvore, para esperar a gente chegar. Na quarentena, eles não saíram de casa. O único caminho foi o hospital”, continua o filho do casal.

A esperança de Odair, agora, está em Deus. “Um dia, o filho Dele morreu na cruz, por nós. E eu acredito na promessa de que Jesus vai voltar e nos levar para um lugar onde não vai mais ter dor, nem choro”.

GRANDE FAMÍLIA

Seo Antônio e dona Neuza deixaram os filhos Osvaldo, Osmar, Regina, Oscar, Rosangela, Odair e Renata; os netos Diego, Thiago, Aline, Eder, Caio, Kauã, Caique, Taiele, Milena, Emanuel, Glaucia, Débora, Meirielen e Mateus; e os bisnetos Thayná, Davi, Bryan, Miguel, Estevan, Valentina e Amanda.