Tecnologias transformam realidade do mercado literário

Audiobooks e ebooks são as apostas também em Indaiatuba

Por Mariana Corrér

 

Que as tecnologias estão revolucionando o modo como se vive, todo mundo já sabe – e sente. Todo mundo também vem ouvindo há bastante tempo que a internet acabaria com jornais e livros. Essa parte ainda não é real, mas o fato é que o mercado editorial está aprendendo a lidar com as novidades e sofrendo grandes transformações.

No ano passado, por exemplo, o setor editorial brasileiro teve um decréscimo real de 4,5% e faturou R$ 5,12 bilhões. Produziu 350 milhões de exemplares, 43,4 milhões a menos na comparação com 2017, e comercializou 202,7 milhões de exemplares, queda de 8,84%, de acordo com a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) a pedido do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que ouviu 202 editoras do Brasil.

Plataformas de livros digitais, como Kindle, Kobo, Apple Books, GoogleBooks e Lev Saraiva, porém, ganham espaço. Segundo a Fipe, em relatório de 2018, com base de pesquisa em 2017, 1,09% dos livros lidos no Brasil são digitais. Os outros 98,91% ainda são impressos. Apesar de tímido, o mercado está crescendo.

Esse aumento é movido, principalmente, pelas novas gerações, que são mais digitais. Os formatos virtuais de livros acabam, assim, cumprindo um papel importante ao incentivarem e fortalecerem o hábito de leitura, afinal, o preço do livro digital é de 20% a 30% mais barato que a sua versão impressa.

A tendência é global e, em Indaiatuba, não é diferente. Escritores e produtores locais se dedicam a obras digitais, sejam elas escritas ou em áudio.

A escritora e advogada Rebeka Prez está trabalhando na primeira impressão de livro físico, mas esse não é seu primeiro volume. Leitora de obras digitais desde 2007, ela já publicou quatro livros online. “Isso porque há vários custos que encarecem a publicação física e, por uma série se motivos, os leitores brasileiros preferem pagar por um autor internacional do que o mesmo valor em um nacional”, conta. “E, mesmo com toda a dificuldade para chegar à editora, ela te escolher em vez de dar o espaço para um autor internacional, e, caso conseguisse espaço em uma editora menor, eu teria apenas 10%, no máximo 20% do preço de capa repassados a mim”.

É por isso que ela escolheu ser independente e continua publicando virtualmente desde 2016, quando lançou Por Onde Ela Esteve?, pela Amazon.

Seus livros são mais voltados para o romance, embora sejam acompanhados de perto por outros gêneros como o mistério, ação, aventura, fantasia e até espiritual. “Também tenho vários contos publicados no Wattpad, uma plataforma de leitura gratuita com muitas histórias de leitores independentes”, lembra Rebeka.

 

 

PERFIS DE MERCADO

Acompanhando os números das pesquisas, Rebeka tem consciência de que o livro físico ainda é o preferido do público em todo o mundo. “Porém o mercado de ebooks vem ganhando bastante espaço no Brasil, em especial pelo preço”, acredita a escritora. “Enquanto se paga em torno de R$ 40 a R$ 60 pelo livro físico, a versão digital pode chegar a R$ 20 e há diversos livros de autores independentes, de qualidade, por menos de R$ 10”, avalia.

Por falar em autores independentes, conforme o mercado de ebooks cresce, cada vez mais escritores se tornam autores em tempo integral. É o que mostram os dados da pesquisa Self Publishing Survey, da empresa Bookbaby. Mais de mil autores independentes ultrapassaram a marca de 100 mil dólares em royalties no maior ecommerce de ebooks em 2017. “Infelizmente, apenas 0,01% dos escritores chegam a ser um Paulo Coelho, Stephen King ou JK Rolling”, adiciona Rebeka. “A grande massa vive de outras profissões (nosso Machado de Assis era funcionário público) e isso não se restringe ao Brasil”, completa.

Todos seus livros custam R$ 8 na Amazon. “E todos os meus custos para produção dos livros já foram cobertos com as vendas”, comemora a autora.

 

Livros falados e interpretados também são destaque no mercado digital

 

Os livros digitais têm a possibilidade de serem mais interativos, com som e diferentes imagens, links e todas as multimídias. As possibilidades encantaram Gerê Canova, que está investindo no mundo dos audiobooks.

Gerê é ator, diretor, produtor cultural e, por se encantar com esse universo dos estúdios, resolveu se aventurar nas gravações.

Ele criou o canal ImaginaSom Áudio Produções, no YouTube, onde já estão disponíveis dois contos. “Existe muita coisa na internet, mas nem tudo é bom, aliás, muita coisa não é boa, pelo menos não tecnicamente”, diz Canova. “Eu queria fazer algo bem feito, que convença e seja gostoso, prazeroso para ouvir”, acrescenta.

Foi então que começou a estudar o assunto, aprendeu sobre gravações e edições, comprou um bom equipamento e montou um estúdio em sua casa. O primeiro audiobook, com cerca de 18 minutos, conta a obra Missa do Galo, de Machado de Assis. “Ele demorou umas três semanas para ficar pronto, entre captação e edição”, recorda o produtor.

Gerê convidou atores amigos dele para essa “experiência”. Em vez de ficar somente com um narrador para a história inteira, os personagens também aparecem com suas vozes durante as falas. “E essa captação demora, pois somos todos iniciantes e estamos testando as possibilidades, tanto é que o primeiro conto teve 5 horas de áudio bruto”, revela.

Para ele, o maior desafio - além de todo o quesito técnico - é a escrita. “Fazer um texto voltado apenas para o áudio é muito diferente e bem específico, é difícil deixar atrativo para o ouvinte ter liberdade de imaginar a cena, não posso conduzir muito esse leitor”, explica.

Para a escolha das obras selecionadas, o maior critério está na legalidade. Ele utilizará somente obras de domínio público, e o mesmo vale para a trilha sonora dos produtos.

A segunda obra publicada no canal foi Sonetos de Amor, de Luiz de Camões. E, para breve, as crianças também serão contempladas com obras infantis.