Projeto dá aulas de Português para imigrantes refugiados em Indaiatuba

Turma do Tutty está em busca de voluntários para que possa receber mais alunos

Por Mariana Corrér

A busca de pessoas por melhores condições de vida ao fugirem de seus países tomou conta do noticiário mundial e já é realidade em Indaiatuba. Muitos deles chegaram à cidade recentemente e ganharam um apoio para conseguirem se estabelecer: o Projeto Alfa, da Turma do Tutty, que dá aulas de Português a esses imigrantes.

O projeto começou em maio e, atualmente, atende 27 haitianos, cinco venezuelanos, um indiano e mais duas colombianas são esperadas para as próximas aulas. O grupo é bem diversificado, desde aqueles que ainda não falam nada de Português, até aqueles mais avançados, precisando melhorar a fluência.

Repleto de histórias tristes, emocionantes e cheias de coragem, persistência e resiliência, o grupo está em busca de voluntários para que possam receber mais alunos. “O projeto nasceu em uma conversa minha com o Antônio [Herrera, da Turma do Tutty], quando comentei que já fazia um trabalho com haitianos em Salto e ele disse que havia uma demanda grande em Indaiatuba”, conta o responsável pelo projeto, pastor João Hamilton.

Foi então que, por meio da Turma do Tutty, Herrera conseguiu alguns voluntários e hoje podem colaborar com esses imigrantes no espaço da Igreja Batista Central. “Nós tentamos ir além dessas quatros paredes, conseguimos doações do que eles precisam, ajudamos com currículos e os entregamos para possíveis vagas, encaixamos o pessoal em novos trabalhos, marcamos médico, os levamos a consultas etc.”, cita Hamilton.

Por isso, a importância de mais voluntários engajados no projeto. “Sabemos que existe muito mais gente refugiada na cidade, mas só conseguiremos recebê-los com mais voluntários nos ajudando”, ressalta o pastor.

CONEXÃO EM RORAIMA

Cada vez mais se sabe ou se encontra imigrantes recém-chegados ao Brasil buscando refúgio. Já são quase 11 mil em todo o país e cerca de uma centena em Indaiatuba.

Quase toda a totalidade desses refugiados saiu de seus países de maneira drástica e dolorosa, deixando para trás as famílias, carreiras e muitas histórias.

Uma dessas histórias foi vivida pelo casal Mari Carmen e Vicente Rodriguez. Eles deixaram a Venezuela há pouco mais de um ano com destino a Pacaraima, em Roraima, que fica na fronteira entre os dois países. “Lá, moramos com uma brasileira e trabalhávamos com ela, mas não recebíamos, o trabalho era de graça”, lembra Mari Carmen, em bom “portunhol”. “Mas Deus ajudou e consegui trazer minha filha e minha outra filha que estava grávida; o bebê nasceu em Pacaraima e já é um brasileirinho com nove meses”.

Ainda em Roraima, eles encontraram uma igreja, onde passaram um tempo com outros imigrantes e conheceram um fiel da Comunidade Batista de Indaiatuba que estava de passagem por lá. “Ele convidou três famílias para vir a Indaiatuba com ajuda da igreja e nos escolheu como uma delas”.

Há quatro meses por aqui, a família está no Projeto Alfa há três semanas. “Nas aulas, conhecemos outras pessoas, estamos aprendendo a falar melhor o Português, aprendemos a escrever e ainda eles nos ajudam com outras coisas”, prossegue Mari Carmen. “Já nos conseguiram um colchão novo e fizeram meu currículo”, acrescenta.

Mari ainda está procurando emprego, enquanto Vicente já está trabalhando como pintor. Na Venezuela, ela trabalhava com cozinha e limpeza, e seu marido era policial. “Não é fácil, pois nós tínhamos nossa vida lá, é muito difícil viver em um país novo e deixando tudo o que tínhamos para trás, e nossa família ainda está lá, nossas mães e nosso filho, que também vai ser pai”, desabafa.

“Precisamos trazer sua esposa para ter o bebê aqui, a necessidade é grande por questão de segurança”, completa, sem segurar a emoção.

ATRÁS DO SONHO

Com uma trajetória mais tranquila, mas não menos difícil, Jeff Rene também busca aperfeiçoamento na língua com o grupo. Ele deixou o Haiti em busca de um sonho: a faculdade de Bioquímica. Lá, as condições são muito precárias, o que praticamente inviabiliza os estudos a nível superior para grande parcela da população.

Ele se mudou para o Equador, onde foi viver com um tio. Ficou um tempo por lá, até encontrar um amigo que o convidou para vir para o Brasil, em busca de melhores condições. Ele conseguiu o visto e chegou em novembro de 2013. Viver por três anos no Mato Grosso do Sul, em Três Lagoas e depois se mudou para Indaiatuba. Há quase dois anos, sua então namorada e agora esposa, Daphne, pôde vir para cá, deixando sua família no Haiti, onde era enfermeira. Assim como todos refugiados, ainda estão se adaptando e encontram algumas dificuldades para que consigam se acertar com a nova rotina e encontrar empregos. Jeff já está trabalhando, mas para sustentarem a casa e o bebê de oito meses, eles fazem uma geleia haitiana, muito famosa em seu país e que está fazendo sucesso por aqui.

Estudar Bioquímica ainda está nos planos de Jeff, mas com alguns empecilhos no caminho. “No Mato Grosso do Sul, consegui uma vaga para outro curso, mas perdi por falta de documentos”, recorda. “Estou tentando todos os documentos que preciso, com ajuda do pessoal do projeto, para que eu traduza tudo e não perca mais nenhuma oportunidade”.
Junto a isso, está estudando Português e vai começar a estudar outras disciplinas para ter chances em vestibulares futuros.

AS AÇÕES

João Hamilton não esconde os anseios dos voluntários com todas as ações do grupo. “Nossa expectativa é de prepará-los para o Encceja, Enem e vestibulares, para que possam dar continuidade aos estudos, que consigam validar suas profissões aqui no Brasil e que tenham suas carreiras”, declara. “Não podemos esquecer que eles já tinham suas profissões, muitos eram bem-sucedidos em seus países, o que torna ainda mais difícil essa missão de começar do zero em um país novo”, continua. “E o pior é que os governos, tanto venezuelano quanto haitiano, não permitem que eles consigam trazer seus documentos; está tudo fechado”.

Vânia Boscolo é professora voluntária e encarregada de preparar as aulas. Orgulhosa, mostrou os trabalhos feitos na última semana pelos alunos. “Nós estamos trabalhando verbos e pedi que fizessem produção de texto, e eles se saíram muito bem”, comemora.

Ao longo das aulas, eles aprendem a se comunicar. “Então treinamos verbos, construção de frases e interpretação de textos, de preferência com materiais que são da vivência deles e que são úteis para o dia a dia”, explica a professora.

Junto a isso, alguns deles estão participando de um outro projeto, este realizado na Faculdade Anhanguera e que ensina outras disciplinas. “As aulas já existiam, mas apenas para brasileiros. Agora eles toparam receber esses estrangeiros”, revela. “Alguns de nossos alunos frequentam essas aulas e eu vou junto, pois já aprendi o idioma dos haitianos e isso ajuda bastante para eles”.

Vânia também conseguiu contato com a Diretoria Estadual de Ensino para providenciar um teste de nivelamento. “Para os que não têm certificados, vão poder fazer essa prova e saber em quais níveis estão cada um deles; depois disso, podem fazer Encceja, Enem etc.”, finaliza.

CONTATOS

Quem quiser participar das aulas, ser voluntário, tiver qualquer item para doar, serviço ou qualquer ajuda para os participantes pode entrar em contato com o grupo pelas redes sociais da Turma do Tutty ou direto com João Hamilton, pelo número (19) 99683-7325.