60+: Centro-dia é opção para melhorar a rotina dos idosos

Mesclar convivência com a família e com outras pessoas da mesma idade é o ideal

Por Mariana Corrér

Essa reportagem faz parte da série especial sobre envelhecimento que o Blog da Pimenta vem trazendo e vai mostrar uma excelente opção para quem quer preencher a rotina de um idoso da família.

Os centros-dia, as famosas creches de idosos, são uma escolha importante que pode fazer toda a diferença para quem já passou dos 60 anos e está com a rotina vazia.

Indaiatuba já tem alguns espaços que proporcionam essa experiência. O primeiro deles foi no Lar de Velhos Emmanuel, há pouco mais de dez anos. Hoje, há também o Centro-Dia e Permanência José Theodoro Dias, inaugurado pela Prefeitura e administrado pelo Cecal (Centro de Convivência Amor sem Limites), e totalmente gratuito. O espaço oferece 98 vagas gratuitas para idosos, sendo 48 para acolhimento 24 horas e 50 para permanência durante o dia e faz parte do PAI (Programa de Atenção ao Idoso).

Hoje o espaço já está lotado, tanto de pessoas quanto de satisfação. A coordenadora do Cecal, Rita de Cássia Tramarim, não esconde a alegria ao falar do centro-dia, que tem mudado a vida de muitos pacientes. “Eles chegam aqui de um jeito e, em pouco tempo, já parecem outras pessoas. As famílias dão esse retorno, contam que eles estão melhores também em casa”, diz.

A psicóloga da instituição, Norma Elise Alves Mendes, explica o porquê. “Muitos idosos chegam aqui depois de um tempo recluso, sem sair de casa por não poder ou não querer, alguns têm depressão, quadros diferentes, mas com características parecidas”, conta. “Então, quando começam a vir para cá, a mudança de rotina é drástica, mas para melhor”, acrescenta.

Essa mudança inclui, obviamente, o cotidiano, já que o idoso não fica mais em casa, começando o compromisso de ir todos os dias – ou alguns dias por semana - até a creche, mas também muda suas perspectivas. “Nós conversamos, queremos saber como eles estão se sentindo, o que pode ser melhorado, e essa troca é muito importante”, comenta a psicóloga.

Dentro desse trabalho, fazem parte atividades interdisciplinares como psicoterapia, fisioterapia, festas temáticas o ano todo, yoga duas vezes na semana, jogos e brincadeiras interativas, horas livres para que eles possam praticar coisas que gostam, como crochê, desenho etc., e, principalmente, a interação social. “Conversar com outras pessoas da mesma faixa etária é fundamental, fazer amizades para compartilhar suas histórias, suas experiências de vida, relembrar namoros, empregos e até compartilhar suas angústias desse momento da vida são coisas importantíssimas para que eles voltem a ter uma vida normal”, reforça Norma.

Segundo ela, não se pode esquecer que a velhice é tida como um declínio, tanto físico quanto emocional e os cuidados com corpo e mente são cruciais para que este declínio seja mais lento e menos doloroso. “A vida é como uma escada, na juventude você vai subindo, se estabiliza lá em cima e depois começa a descer quando envelhece, mas ninguém nunca se preparou para isso, agora é que as novas gerações falam sobre envelhecer e se preparam para essa fase”.

DESAFIOS

Entender esse momento da vida e saber que algumas limitações passam a ser normais na vida é o que faz a diferença para se obter qualidade de vida. A maioria dos pacientes do espaço-dia chegam lá depois dos 80 anos, quando já é perigoso que eles fiquem muito tempo sozinhos em casa ou não realmente não têm com quem ficar. No entanto, um centro-dia pode ser encarado como uma atividade de prevenção, um complemento na rotina de quem já passou dos 60 anos e se aposentou do trabalho e outras coisas que estavam acostumados a fazer.

Essas mudanças, naturais da idade, levam a quadros de insatisfação, deslocamento e até depressão. “Essa é uma doença muito comum entre os idosos, e são normais até casos de suicídio”, enfatiza a psicóloga do Cecal. “Não existe uma receita do que leva à depressão, mas na nossa experiência, a aposentadoria é um fator determinante, que o deixa deslocado, ocioso e faz o idoso se questionar: e agora?”.

Esse é o primeiro desafio a ser encarado, mas a questão das famílias não entenderem ou não aceitarem a velhice, a mobilidade reduzida, algumas dores ou doenças, demências como Alzheimer, tudo isso são possíveis situações que quase todos vão ter que enfrentar. “Como não nos preparamos para ficar velhos, tudo isso é muito assustador, e ter uma rotina em uma creche, com acompanhamento profissional e amigos da mesma idade é terapêutico”, revela Norma. “Esse conjunto de coisas dá maior qualidade de vida e bem-estar, segura para que o declínio da saúde física e mental não seja tão grande ou tão rápido”, completa, lembrando que esse conjunto deve ser trabalhado juntamente da família.

EXPERIÊNCIAS

Os espaços-dia de Indaiatuba não têm autorização para divulgação de imagem de seus pacientes. Por isso, a Reportagem apresenta a visão da repórter, Mariana Corrér, pela experiência que teve com sua avó na creche do Lar de Velhos Emmanuel.

"Minha avó, Iracy Correr, faleceu em 2018, perto de completar 94 anos, mas antes, ficou quase nove anos no Espaço-dia do Lar de Velhos. Antes, ela havia quebrado o fêmur e não tinha mais a mesma mobilidade para sair de casa sem acompanhante ou ficar muito tempo sozinha em casa, por conta dos riscos caso resolvesse fazer alguma atividade doméstica, por exemplo. Até então, eu passava a maior parte do tempo com ela e revezava com a família. Porém, quando comecei a trabalhar, em 2009, não conseguiríamos mais conciliar essa rotina e o Lar havia recém-inaugurado a creche. Minha avó foi uma das primeiras pacientes e, de início, ela iria somente dois dias por semana, porém, no segundo dia, ela já pediu se poderia ir todos os dias.

E assim foi por quase nove anos. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, chegava lá por volta das 7h30 e voltava para casa depois das 16h30. Lá, fez amigos com idades parecidas. Foi pedida em casamento três vezes, mas rejeitou todas elas. Tinha fisioterapia, terapia ocupacional, enfermeiras em período integral, nutricionista, alimentação balanceada, atividades físicas diariamente, atividades culturais, manicure, cabeleireiros, muitas festas e tudo o que ela precisava para ter uma rotina saudável e divertida.

Desde o começo, ela se apaixonou por lá, pelo dia a dia no espaço, pelas pessoas, pelos funcionários, que a tratavam maravilhosamente bem. Com certeza, ela viveu mais e melhor, graças aos benefícios que a creche lhe proporcionou. Até a véspera do AVC que a matou, ela não perdeu quase nenhum dia lá, e amava isso, fazia sua malinha todos os dias para o dia seguinte, contava as histórias do que acontecia no seu dia a dia, replicava os contos de seus amigos e assim foi, quase nove anos de muita gratidão.”